Devaneios de um Qualquer


De frente pro mar.
25 Outubro, 2008, 4:13 pm
Arquivado em: Contos | Tags:

Sempre que podia, parava na janela só para vê-la passar. Todos os dias ela descia a rua, atravessava o calçadão, parava na beira d’água e, simplesmente, admirava o mar. Às vezes, quando ocupada, desviava seu caminho para a escola mesmo se fosse perder tempo ou andar uma distância maior só para não deixar de ver o mar. Parecia, inclusive, que coincidiam o humor com o vento e a água. Nas manhãs ensolaradas, daquelas capazes de arrancar sorrisos em qualquer rosto, ela parecia mais leve, seus cabelos eram mais reluzentes. O sorriso estampado em seu rosto era como uma foto numa propaganda de pasta de dentes, era impecável até nas imperfeições de sua beleza. Linda. Se o tempo fechava, ela ainda sim era lindíssima, de uma forma mais séria e às vezes compenetrada. Diferente, mas ainda sim bela.

Um dia, pensei em ir falar com ela, em dizer o quanto a admirava. Fui até a beira d’água, e fiquei esperando. Ela veio, parou perto de mim, e começou a olhar o mar. Pensei no quê deveria dizer, mas percebi logo que não adiantaria falar nada. O contentamento que ela demonstrava por estar ali, na beira da praia, não podia ser interrompido. Então não falei nada, só fiquei ali, ao lado dela. Comecei a admirar o mar, e fitava-a a meu lado. Sinceramente eu não estava ali para admirar o mar, estava para falar com ela. Mas depois de alguns segundos comecei a pensar no motivo por ela gostar tanto do mar, talvez se eu conseguisse entender o por quê dela gostar tanto de estar ali, de ver o mar. Então, meio que ignorei-a a meu lado e, comecei a olhar o mar. Quando dei por mim, ela já tinha se ido. Continuei lá, e fiquei olhando o mar. Depois, passei a fazer isso todos os dias, e percebi que realmente havia uma beleza no mar que não se pode explicar. E a sensação era melhor quando ela parava a meu lado.

Alguns dias depois, a mesma cena se repete e ela pergunta:

- Impressionante né?

- É sim. – Respondi. E foi só.

No outro dia, fiz como já vinha fazendo. Desci, fui até a praia e fiquei olhando o mar enquanto a esperava. Mas, não sei por quê, ela não veio. Esperei mais um pouco, mas a esperança já se esgotara. Ela não viria naquele dia.Passei o resto dia pensando: E se ela não vier mais? Não acredito que não falei mais nada além do quê: “É sim”. Nem ao menos sabia seu nome, nem isso eu tinha perguntado. Naquela noite, praticamente não dormi, só ficou o arrependimento pelo não feito.

Na manhã seguinte eu estava lá, esperando por aquele sorriso, aqueles olhos que se perdiam no mar. E a minha ansiedade não demorou a findar, quando ela apareceu na calçada, a três quarteirões da praia. Parecia que meu cérebro fazia um spotlight sobre ela. Tornando tudo, que se passava na rua, secundário. Seus cabelos balançando à brisa do mar. Seu andar cadenciado e distraído, parecia que o mundo parava para vê-la passar. Pelo menos o meu, com certeza naquele momento, parou. Ela veio até mim e perguntou:

- Oi, você veio ontem?

- Vim sim. – Respondi.

- Hum, que pena eu não ter vindo. – Falou deixando escapar um leve suspiro de desapontamento.

- Não importa, você veio hoje. E isso, pra mim, já é o bastante. – Retruquei.

- Ué, mas você sempre fica aqui a meu lado sem falar nada mesmo quando gostaria que você me dissesse algo. – Falou com um pouco de indignação na voz.

- Estava fazendo o mesmo que você, só que de uma forma diferente, você não admira o mar? Eu ficava aqui admirando você. O mar sempre estará ali, e dá pra dizer o quanto ele é bonito a qualquer hora. Agora você pode não vir amanhã. Então gostaria que soubesse que você é a garota mais linda que já vi, que quando você passa todo o resto do meu mundo pára. Que a frustração que senti quando percebi que poderia te perder, mesmo sem ter tentado te ter, era grande demais e que eu não poderia esperar mais para te dizer isso.

Ela riu, e se virou novamente para olhar o mar. Só que dessa vez, de mãos dadas, comigo.



Fofoca
24 Outubro, 2008, 11:34 pm
Arquivado em: Diversos | Tags:

Como bom (e nada modesto) observador, constatei que existem pessoas que insistem em não fazer nada. Em não produzir coisas construtivas, instrutivas. Apenas duvidam de si, de forma a impossibilitar qualquer iniciativa para qualquer coisa, qualquer ato, qualquer idéia. A futilidade é sempre seu emblema, seu escudo, seu refúgio. A possibilidade de saber de alguma coisa interessante, obviamente sobre outras pessoas, aguça a curiosidade. A falta de aventura, de novidade, de emoção na própria vida os fazem pensar apenas no quê os outros deveriam, ou não, fazer. Seres altamente nocivos, poluentes, que fazem questão de se esconder atrás de uma falta absurda de cultura, de interesse pela vida.

Degradam-se tentando viver a vida dos outros, tentando viver a parte interessante da vida de quem invejam. Como não lembram-se de si? Como não percebem que a falta de atitude no presente virará, com certeza, saudosismo do quê não foi feito no futuro?

Uma humilhação conformada parece que acelera o crescimento do interesse no que é alheio. Basicamente não mensuram suas perdas e imposturas, não almejam nada, a não ser saber se há discórdia entre os que os rodeiam.

Implantam planejamentos para adquirir informações sobre o quê lhes dê assunto, lhes seja material como escambo, tanto de favores como de outras informações. Alteram as informações, como brincando de telefone sem fio, para ver o que conseguirão causar nas outras pessoas. Modificam suas rotinas a ponto de vigiar suas fontes de assunto. Alteram seu próprio modo de vida para bebericar o quê acontece na vida alheia.

Pensei até, por alguns instantes apenas, que poderia ser inveja. Mas a inveja desacompanhada da vontade de fazer igual, de nada adianta. Diminui-se por não perceber a falta de vontade de crescer, de evoluir.

Me confundo a tentar descrever tais criaturas, por não compreendê-las bem. Interessam-se mais em saber da vida de terceiros do quê viver a própria vida. Em parte, até os entendo, afinal de contas sei que minha vida é sim muito interessante. Mas ela deveria ser interessante apenas para mim e para aqueles que considero importantes o bastante para saberem das minúcias que cometo, dos problemas que enfrento, de como os enfrento, enfim é a minha vida. Digo isso por saber que cada um deve conhecer o quê há de interessante em sua própria vida.

Li uma vez que a vida é feita para ser vivida, mas para ser vivida de verdade, não comentada. O interessante da discussão, no cotidiano, deveriam ser as idéias, e não as pessoas. Os atos que cada um comete só deveriam interessar os participantes dos mesmos, e não aos alheios que observam de forma quista o quê se passa na vida de terceiros.

Mas devo admitir, também, que como observador constatei que mesmo assim devemos continuar a viver nossas vidas, não nos importando o quê pensem ou falem a nosso respeito. Isso não mudará nosso caráter, só fará diferença se dermos ouvidos às vozes que só repetem o mesmo assunto: A vida alheia, ou seja: Vida mais interessante que a própria.



Passeio.
22 Outubro, 2008, 5:25 pm
Arquivado em: Fragmentos

Minha inspiração foi ali e já volta..



Consciência.
20 Outubro, 2008, 8:14 pm
Arquivado em: Poesias | Tags:

Fala o quê não deve.
Fala o quê deve.
Fala se deve.
Fala se já pagou.
Fala o quê pensa.
Fala o quê inventa.
Fala o quê acredita.
Fala sobre o quê não quero saber.
Fala o quê não quero ouvir.
Fala quando queria ficar quieto.
Fala enquanto estou por perto.
Fala que não foi de peito aberto.
Fala por assim não ser o certo.
Fala sobre o esquecido.
Fala o desmentido.
Fala o descabido.
Fala só por falar.
Fala ao invés de calar.
Fala e nunca cala.
Fala pro quê a fala não basta.
Fala mais do que deveria.
Fala até quando já não se ouvia.
Fala da falta do quê falar.
Fala demais…